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A Abin só aparece pra futilidades!!! Cadê o Profissionalismo??!!

Dezembro 15, 2006

1º – Crise na Abin
Espiões fora de controle
Série de Artigos

Lucas Figueiredo
Estado de Minas e Correio Braziliense

Ao trocar, na semana passada, a direção da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrou a primeira fase de uma delicada operação do governo. O objetivo da manobra, que já dura cinco meses e inclui uma série de ações sigilosas, é tentar dominar o serviço secreto. Isso mesmo: o Palácio do Planalto não detém, hoje, o controle absoluto sobre o serviço secreto. Durante três meses, o ESTADO DE MINAS e o CORREIO BRAZILIENSE investigaram os bastidores da crise na Abin e os esforços do governo para sair do atoleiro em que se meteu. Trata-se de uma história com agentes secretos espionando agentes secretos, espionando o governo e vazando informações (falsas e verdadeiras) que levaram o Palácio do Planalto ao pânico.

Receio de melindres

Lula iniciou seu governo com o serviço secreto entregue a duas pessoas que não eram da sua confiança nem da confiança do PT. Em pouco tempo, o presidente se arrependeria amargamente do seu gesto.

Logo ao tomar posse na Presidência, em janeiro de 2003, Lula optou por não mexer na direção e na estrutura do serviço secreto. Ele temia melindrar os militares, que dominam o setor desde 1946, exceção para um breve período, entre 1990 e 1992. O presidente manteve a diretora-geral da Abin nomeada por Fernando Henrique Cardoso (Marisa Del Isola, uma psicóloga com mais de 20 anos de serviço secreto). Lula também deixou a Abin subordinada ao Gabinete de Segurança Institucional (GSI), órgão da Presidência da República que durante décadas se chamou Casa Militar.

O cuidado de Lula para não melindrar as Forças Armadas foi tanto que a nomeação do ministro-chefe do GSI, general Jorge Félix, foi feita não com base em critérios políticos ou profissionais, mas sim em função da colocação dele no Almanaque do Exército, que classifica os militares por patente e tempo no posto. Pelo almanaque, Félix era o oficial mais graduado para aquele posto, e, assim, acabou ganhando o cargo.

Susto em fevereiro

Em fevereiro deste ano, veio o susto, com o estouro do caso Waldomiro Diniz, assessor da Casa Civil filmado quando pedia propina a um bicheiro. As gravações haviam sido feitas em duas ocasiões e duas situações diferentes: no escritório do bicheiro, no Rio, com uma câmera escondida, e no saguão do aeroporto de Brasília, pelo sistema de circuito interno da Infraero, responsável pela administração do aeroporto. Numa investigação sigilosa, o governo apurou que a segunda gravação tivera o envolvimento de um militar da Aeronáutica que atuava como informante do serviço secreto. A descoberta fez tremer o Palácio do Planalto. E se agentes da Abin usassem de espionagem para chantagear ou desestabilizar o governo? Foi aí que o Planalto se deu conta de que não dominava o setor, nem sequer conhecia direito seus dirigentes.

A crise descoberta

Imediatamente, a Presidência deflagrou uma operação para retomar o controle sobre o serviço secreto. O ministro Luiz Gushiken (Comunicação de Governo e Gestão Estratégica) foi um dos que participaram da articulação, enviando um assessor a São Paulo para consultar especialistas sobre o assunto e ”mapear” a situação em que se encontrava a Abin.

A sondagem patrocinada por Gushiken revelou uma profunda crise no serviço secreto. Na Abin, cinco grupos se digladiavam por espaço:
1) remanescentes do antigo Serviço Nacional de Informações (SNI);
2) militares;
3) maçons;
4) agentes contratados por concurso público, a partir de 1995;
5) funcionários ligados à Escola de Inteligência (Esint), que forma agentes para a Abin.

Um sexto grupo, formado por integrantes de todas as fações, também começava a ganhar corpo: o de agentes ligados a uma associação autodenominada ‘’seção sindical”.

A disputa interna era tão grande que um grupo de servidores e ex-servidores tivera a ousadia de mandar um abaixo-assinado ao ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, pedindo a troca da diretoria da Abin. Com uma só tacada, o grupo atropelou o general Félix e mostrou que a diretora-geral da Abin (representante da facção da escola) não tinha controle sobre seus subordinados.

A mentira e o ”olheiro”

Quando ensaiava as primeiras mudanças na Abin, o governo foi sacudido por outra bomba: o vazamento, para a imprensa, de uma informação sobre um suposto espião que agiria na Presidência da República. Segundo a versão, um jornalista que trabalha no quarto andar do Palácio do Planalto estaria recebendo, de agentes da Abin, R$ 2,5 mil por mês para repassar informações sobre a prefeita de São Paulo, Marta Suplicy (PT), e sobre José Dirceu.
Só havia dois jornalistas, ambos com excelente conceito na categoria e fora dela, que se encaixavam na descrição vazada à imprensa: Ricardo Amaral, assessor do ministro Luiz Dulci (Secretaria Geral da Presidência), e Alon Feuerwerker, assessor do ministro Aldo Rabelo (Coordenação Política). A informação, no entanto, era falsa. Ricardo e Alon não eram espiões, mas, sim, vítimas da luta entre as facções da Abin.

Ocorrido na semana em que o salário mínimo seria votado no Senado, o vazamento tinha sido obra de agentes interessados em desestabilizar o general Félix. Tratava-se, na verdade, de uma isca. A informação sobre Ricardo e Alon era mentira, mas o espião de fato existia. Era, sim, um jornalista, mas apenas por formação, trabalhava no Palácio do Planalto e repassava informações ao grupo da Abin formado por remanescentes do SNI. A espionagem, contudo, nada tinha a ver com Marta ou José Dirceu. O espião era uma espécie de ”olheiro”, contando a seus colegas da Abin coisas que via e ouvia no Planalto.

Mudança e emergência

Com a falsa notícia do espião na praça e um espião de verdade ainda nas sombras, o Planalto resolveu, enfim, agir. Demitiu a diretora da Abin e colocou em seu lugar Mauro Marcelo de Lima e Silva, delegado da Polícia Civil de São Paulo que há dez anos goza da confiança do PT e, em especial, do presidente Lula.

Empossado na semana passada, numa cerimônia que contou com a presença do presidente, Mauro chega à Abin prestigiado pelo Planalto, mas com muitos obstáculos pela frente. Ele terá duas missões emergenciais. A primeira é apaziguar as facções da Abin (para tanto, Mauro já pediu uma trégua e sinalizou que não punirá ninguém pelas confusões recentes). A segunda é neutralizar seu superior imediato, o general Félix, cuja liderança no serviço secreto e cujo prestígio no Planalto ficaram abalados.

Nova safra

O final da história ainda está por vir. Espera-se, para breve, o vazamento de notícias positivas sobre a Abin, como casos bem-sucedidos de defesa do Estado e de neutralização de espiões estrangeiros no Brasil. Só o tempo dirá, no entanto, se a safra de boas novas e a trégua vão durar. Uma coisa é certa: o caldeirão do serviço secreto está longe de esfriar.

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